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Quando o algoritmo encontra a consciência: Inteligência Artificial, BIM e a metanoia do profissional de custos



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Como a convergência entre tecnologia e consciência profissional está transformando a engenharia de custos

Autora: Profª Maria Izabel de Paula Ribeiro

Resumo

A indústria da construção civil atravessa uma transformação estrutural impulsionada pela digitalização de processos, pela adoção do Building Information Modeling (BIM) e pelo avanço dos sistemas de Inteligência Artificial (IA) e Internet das Coisas (IoT). No campo da engenharia de custos, essas tecnologias não apenas redefinem métodos operacionais, mas exigem uma mudança profunda na postura profissional, aqui denominada metanoia. Este texto analisa como a convergência entre BIM, IA e IoT impacta diretamente a confiabilidade, a produtividade e a qualidade das decisões no orçamento e planejamento de obras. Discute-se ainda a reconfiguração do papel do orçamentista, que deixa de atuar como mero executor de planilhas para assumir uma função estratégica, analítica e ética, orientada por dados e pelo custo do ciclo de vida. Por fim, são apresentadas perspectivas para a consolidação da Engenharia de Custos Digital no horizonte de 2026.

Tópicos que você vai encontrar neste texto:

• A transformação digital na construção civil

• O papel do BIM na engenharia de custos

• Inteligência Artificial aplicada ao orçamento e planejamento

• A integração entre dados, tecnologia e tomada de decisão

• A metanoia do profissional de custos

• A nova engenharia de custos digital

• Perspectivas para a construção orientada por dados

A transformação digital na construção civil

A digitalização tem promovido mudanças profundas nos setores produtivos. A construção civil, tradicionalmente marcada por processos fragmentados e baixa integração, passa por um processo acelerado de transformação.

O surgimento de ecossistemas digitais baseados em BIM, aliados à Inteligência Artificial e à análise de grandes volumes de dados, altera significativamente a forma como projetos são concebidos, planejados e orçados.

Nesse contexto, o orçamento de obras deixa de ser uma atividade reativa e passa a integrar um sistema preditivo, capaz de simular cenários, antecipar riscos e apoiar decisões estratégicas.

Essa transição exige não apenas novas ferramentas, mas uma mudança estrutural de mentalidade (a metanoia profissional) que reposiciona o engenheiro de custos como protagonista da gestão econômica do empreendimento.

Transformação digital e Indústria 4.0 na construção

A transformação digital da construção civil está alinhada aos princípios da Indústria 4.0, caracterizada pela automação inteligente, interoperabilidade e análise de dados em larga escala.

No setor AECO, o BIM atua como núcleo estruturante dessa transição, conforme estabelecido pela ISO 19650, que define a gestão da informação ao longo do ciclo de vida dos ativos construídos.

No contexto brasileiro, a adoção do BIM é regulamentada pelo Decreto nº 10.306/2020, que institui a Estratégia Nacional de Disseminação do BIM, além das normas ABNT NBR ISO 19650 e ABNT NBR 15965, que tratam da gestão e classificação da informação da construção.

Essas diretrizes asseguram interoperabilidade, rastreabilidade e confiabilidade dos dados utilizados nos processos de orçamento e planejamento.

BIM como base da engenharia de custos digital

O BIM permite integrar informações técnicas, quantitativas e custos em um ambiente digital estruturado. No nível 5D, essa metodologia possibilita:

• extração automática de quantitativos

• atualização dinâmica de valores

• rastreabilidade entre projeto, prazo e custo

• simulação de alternativas construtivas

Segundo Eastman et al. (2018), a integração entre modelo tridimensional, planejamento e custos reduz significativamente erros de quantificação e aumenta a confiabilidade das estimativas.

Inteligência Artificial aplicada ao orçamento

A Inteligência Artificial amplia a capacidade analítica dos sistemas de planejamento e orçamento. Entre suas principais aplicações estão:

• identificação de inconsistências em projetos

• previsão de desvios de custo e prazo

• análise de produtividade histórica

• apoio à tomada de decisão baseada em padrões e probabilidades

Pesquisas recentes indicam que algoritmos de aprendizado de máquina aplicados ao planejamento podem reduzir em até 30% os desvios de custo e prazo em projetos de construção.

Esses recursos não substituem o profissional, mas ampliam sua capacidade de análise e interpretação.

A metanoia do profissional de custos

O discurso de substituição do orçamentista pela máquina repete padrões observados em outras revoluções tecnológicas. Assim como ocorreu na Revolução Industrial, a introdução de novas tecnologias não elimina o trabalho humano, mas transforma suas funções e cria novas competências.

Nesse contexto, o profissional de custos deixa de atuar apenas como executor de planilhas e passa a assumir o papel de gestor da informação econômica do empreendimento.

A metanoia profissional representa essa mudança de mentalidade: a transição para um profissional analítico, estratégico e responsável pela integração entre CAPEX, OPEX e custo do ciclo de vida (Life Cycle Cost).

A convergência entre tecnologia e responsabilidade profissional

A integração entre BIM e Inteligência Artificial transforma o orçamento em um instrumento de governança e estratégia. No entanto, quanto maior o nível de automação, maior também se torna a responsabilidade humana.

A interpretação crítica dos dados, a validação técnica, o cumprimento das normas e a tomada de decisões permanecem como atribuições indelegáveis do profissional. A tecnologia automatiza tarefas, mas não substitui o julgamento técnico, a responsabilidade civil e a ética profissional.

A nova engenharia de custos digital

A nova engenharia de custos não se fundamenta apenas na tecnologia, mas na consciência profissional. A transformação digital que ocorre no setor é profunda e irreversível, modificando a forma como planejamos, orçamos e gerimos obras.

Nesse novo cenário, o engenheiro de custos precisa desenvolver competências analíticas, visão sistêmica e capacidade de interpretar dados em ambientes complexos. O profissional que compreende a tecnologia como aliada e desenvolve pensamento estratégico assume um papel ainda mais relevante na gestão dos empreendimentos.

Conclusão

A convergência entre BIM, Inteligência Artificial e sistemas digitais está redefinindo a engenharia de custos. No entanto, essa transformação não representa o fim do orçamentista, mas o nascimento de um novo perfil profissional.

A metanoia, entendida como mudança profunda de mentalidade, torna-se o eixo central dessa evolução.

A engenharia de custos digital combina tecnologia, análise de dados e responsabilidade ética, criando um ambiente onde decisões são cada vez mais fundamentadas em informação qualificada.

Nesse contexto, o verdadeiro diferencial não está apenas nas ferramentas tecnológicas, mas na capacidade do profissional de utilizá-las de forma crítica, estratégica e consciente.

Referências

ABNT. NBR ISO 19650-1:2019. Organização e digitalização de informações sobre edifícios e obras de engenharia civil — Gestão da informação usando BIM.

ABNT. NBR ISO 19650-2:2019. Fase de entrega dos ativos.

ABNT. NBR 15965:2022. Sistema de classificação da informação da construção.

BRASIL. Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020. Estratégia BIM BR.

EASTMAN, C.; TEICHOLZ, P.; SACKS, R.; LISTON, K. BIM Handbook. Wiley, 2018.

FLANAGAN, R.; JEWELL, C. Whole Life Appraisal for Construction. Blackwell, 2015.

RUSSELL, S.; NORVIG, P. Artificial Intelligence: A Modern Approach. Pearson, 2021.

SCHWAB, K. A Quarta Revolução Industrial. Edipro, 2016.

SACKS, R. et al. BIM and Construction Management. Wiley, 2020.

ZHANG, J. et al. Artificial intelligence–based cost prediction models for construction projects. Automation in Construction, 2023.